domingo, 11 de agosto de 2013

Arquitetura - Parte II


















Todo corpo por dentro é
feito de sangue, carências
e um ritmo que toca na face
os rubores das carícias

com seus pares se partindo,
com suas pernas se perdendo
e suas partes se apartando
para então se permitirem

em recomeço, nova junção
em uma só carne, um só cerne
da respiração que une dois corpos

num só elemento, numa só lama,
em frases de um só lema
que os guie para a mesma cama.
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Veja aqui a parte I:  Arquitetura - Parte I

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Encomenda de Mariana

























Encomendam-se pães,
encomendam-se produtos de limpeza,
encomendam-se roupas
mas nunca me pediram um poema.

Eu não sei se é por quilo,
não sei se é por litro
ou ainda se é por tamanho,
só sei que é de coração.

Se me pedissem o mundo,
se tivesse que lhe dar a lua,
eu faria um estudo profundo
para que minha palavra fosse tua

e juntando tudo numa frase
poderíamos ler para além
do poema, a expansão do universo.
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Testemunha


















Não tenhamos expectativas mais,
fiquemos apenas com a ocupação necessária
sem equívocos nem exercícios, só funções
e sejamos espectadores que gozam o momento
sem perder da criação a natureza deste mundo,
o espaço público onde permanece nossos recursos.

Dá-me de tua mão o passeio às ruas,
dou-te de meus olhos as paisagens,
troquemos as medidas de nossos corpos
e que a concepção de nossas experiências
sejam desde o início até um nosso encontro
vocação espontânea, pontos de vista ao acaso.

Assim sejamos pássaros beijando do céu
o desmanche da nuvem e o que ficar
dela para um outro momento passar
por outras gentes, outros contornos da vida,
um sopro que aspira ser terno
e uma eternidade que não aguenta um sopro.

Que a vida é curta para sermos sozinhos,
que a vida é frágil para corrermos perigos demais,
que a vida é conteúdo para todo esquecimento -
dos santos que abrigam nossa matéria dialética
e da natureza que habita a arte de unir humanos
pares em mesmo templo, sem fiar o amanhã.
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terça-feira, 16 de julho de 2013

Carta de um anjo aos que se encontram na terra - epístola secular






















Eu escrevo para trazer os amigos,
para rever situações,
balançar nos caminhos do vento
e pesar meus quilos
e medir o que cresci
e cantar o que se queima.

Eu escrevo para fazer o gol
da bola que bateu na trave,
vomitar o que não era fome,
tornar próximo o que se espera
e a vida tão estranha em seus fatos
e vir feitos que se ligam
como fotos com seus legados,
suas histórias que unem os tempos.

Por isso a escrita: para tocar a trombeta
que nenhum insensível pode ouvir.
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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Desencontro por acaso



Se não fossem as diferenças,
se não fossem os mares,
se não existissem línguas
e tudo ficasse perto
e fosse apenas uma palavra...

Se minha vez fosse em tua era
e se o houvesse não passasse
e o que não trocasse fosse apenas tez,
para sempre assim jovem em nós...

Se o dia permanecesse,
se o tempo não se desse
e você me encontrasse
e a coragem não cedesse...

Se o meu passo fosse encontro,
se meu peso te carregasse
e o ar descobrisse formas
e o que há não dominasse,
se não fosse, então, a vida...
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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Objeto de solidão


















Mas de onde vêm as expressões
estampadas nos vários instantes,
nos muitos sentidos do coração...

elas nos trazem as lembranças
e despertam aos olhos a união,
a nossa história que se renova
e a distância do mar aos que são da terra.

Mas de onde vêm as vozes amigas
estampidas nas cantigas,
morrendo sozinhas, trazendo ternura
ao local onde fica a palavra saudade...

o que trazem são coisas perdidas,
unhas congeladas no corte do corpo,
gestos devagar sob olhos apaixonados.

E as pessoas continuam estrangeiras,
empurrando nuvens, trocando seus suores.
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