quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Encontros e desencontros




Quando é difícil dizer
resta ao corpo não conter
por gesto a palavra quieta,
por modos a paixão disperta.

Quando é raro se dar
é necessário aproximar
por olhos nossas faces
por cheiro nossos disfarces.

Mas nada é difícil ou raro
quando no disparo
dum coração acelerado
se reconhece o ser amado.

Se bem assim for impossível
de ser aberto ou indizível
então não é amor o acontecido
mas, no corpo, gesto perdido.
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Às vezes




O amor é uma casualidade,
ama-se do modo como se morre -
como num acidente na estrada
pode acontecer na ida ou na volta.

O amor é uma realidade,
às vezes é uma mentira -
como a idéia do vendedor
que torna útil o objeto exposto.

O amor é uma falta,
como no jogo de futebol -
interpretação do árbitro
e ponto de vista do torcedor.

E se eu te amo
sem querer e deveras,
com a força de uma queda
à pena de não saber o futuro
eu digo que te amo
pela vida até o fim
porque és todos os meus dias.
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Cristalização




Preciosa, pedra que não
se divide, nem mistura -
é mineral sua veia pura
latentes corpos, um coração.

Encontrar a outra parte
tendo em ti mim mesmo:
lei orgânica do afastar
para unir o querer bem.

Preciosa, vem da terra
o corpo, se lapida e vira
lápide na vida refeita
eu com minha metade.

Somente quando me vejo
outro corpo e mesmo espaço
tenho o pedaço faltante
como fibra de carbono no diamante.
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sábado, 31 de outubro de 2009

Lembramento de amigo




Um amigo é um dia
que ficou para sempre
um trejeito constante
e pensar o que ele faria
se quando a sua frente
um mal se faz gigante.

Misturam-se personalidades,
gostos e dissabores
nos saberes e em seus almoços,
e depois que se vão as vaidades
por ristes pelos mesmos amores
amigos continuam sem alvoroços.

Até que a morte, num silêncio lento,
chega um dia para um, como para ambos,
como para todos, seus pais e avós:
primeiro um, depois outro, um lamento
para lembrar que se em parte vamos
n'outra parte ficamos nós.
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terça-feira, 13 de outubro de 2009

Amor às tijoladas




O sexo bem feito
é aquele que além
do peso corporal
do tijolo e argamassa
tem o contorno do gesso,
a pintura à mão
e o molde do acabamento
para que se more dentro
da pessoa amada
e dela faça a casa
preferida e adornada

e, a cada parede levantada,
se construa um novo quarto,
um lugar a se explorar,
conhecendo por qual porta
se deve nele entrar
e descobrir o que ali se guarda.

Assim tenho sido arquiteto,
engenheiro e, por fim,
trabalhador braçal
usando a força dos dedos
para levantar a pedra fundamental
e poder descansar debaixo de lençois,
feitos para depois dos trabalhos do amor.

...
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domingo, 4 de outubro de 2009

Si Se Calla El Cantor




Morreu Hoje Mercedes Sosa. Nunca fiquei triste por mortes alheias, mas desta vez vale a lágrima por "La Negra", uma das maiores representantes da música latino-americana. Gracias a la vida. Gracias, Mercedes.



Si Se Calla El Cantor
Mercedes Sosa
Composição: Horacio Guarany



Si se calla el cantor calla la vida
porque la vida, la vida misma es todo un canto
si se calla el cantor, muere de espanto
la esperanza, la luz y la alegría.

Si se calla el cantor se quedan solos
los humildes gorriones de los diarios,
los obreros del puerto se persignan
quién habrá de luchar por su salario.

'Que ha de ser de la vida si el que canta
no levanta su voz en las tribunas
por el que sufre,´por el que no hay
ninguna razón que lo condene a andar sin manta'

Si se calla el cantor muere la rosa
de que sirve la rosa sin el canto
debe el canto ser luz sobre los campos
iluminando siempre a los de abajo.

Que no calle el cantor porque el silencio
cobarde apaña la maldad que oprime,
no saben los cantores de agachadas
no callarán jamás de frente al crimén.

'Que se levanten todas las banderas
cuando el cantor se plante con su grito
que mil guitarras desangren en la noche
una inmortal canción al infinito'.


Si se calla el cantor . . . calla la vida. 





segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Intrépido trabalho da morte




Estupro, estupor, trepidez -
sou podre, sou trapo
pedra com poros pútridos,
agora minha pira se parte.

Estranho um estampido,
estaco à sua extrema
trama que me troa trivial
a truncar o que me é vital.

Tranco as portas
trinco minhas taras
e o que era tronco estremece
e o que era traço estanca.

Minha trova fica treva
meus poros suam prata,
envelhecida, escura até
que eu não valha mais nada.
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