terça-feira, 23 de setembro de 2008

Tatuagem



O que marca
a pele na pessoa
que existe
do outro

O que troca
o pelo ao passo
que morre
o eu antigo

O que resiste
ao interesse
que persiste

O culto parado
e história
se contando.
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terça-feira, 16 de setembro de 2008

Representação do amor na idade da pedra esculpida



Lasco pedra
e parto ao meio
o cio que veio
e agora espera
do amor o casco.

Tasco pedra
no vazio do prato
e dou a comida
mais cabo que rabo
lambendo os cascos.

Masco os fumos
das fêmeas
na língua do frêmito
que evapora no calor
das horas gozosas.

No cume do molde
me vejo em névoa
na ponta da pedra:
escultura ou só barro
quente em orgasmo?

Findo e fundo o afã,
não há respostas
por quê acamados
da fúria até a calma
amantes, cio e pele.
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sábado, 28 de junho de 2008

A serviço da palavra




A palavra é uma foda
e também uma corda:
recai em prazer
e morte em vários corpos.

Alguns declaram amor,
outros se enforcam.
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segunda-feira, 19 de maio de 2008

Badalada



Estridentes as mãos, cantavam os olhos.
Batendo os pés bailavam os gestos.
Sorrindo os braços se davam aos pares.

Em seus saltos sorrisos, soltos os braços.
Soavam os sinos em passos humanos.
Choravam em gotas os solitários.

Em moinhos de dança Quixote estava.
Lutando astuto, cantando distinto.
No paço, batalhas com seus gigantes.

De bailada dia e noite não havia
outra amiga que encontrasse em sua vida
pois de badalada assim bela dama ele tinha.

Em tempos distantes, em corpos amantes,
se sonhos ou não, do suor dos rostos
ficaram pra sempre senhor e senhora do baile.
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quinta-feira, 8 de maio de 2008

Instante




O ESPAÇO FEITO
(O AR É RAREFEITO)

SÃO OS MITOS
(SÃO MUITOS)

E OS PUDORES
MADUROS AFLORANDO
COM CERTEZA DE VIDA.

A VIDA É
CONTRASTE DAS CENAS
(AS MENTIRAS PARECEM PEQUENAS)

DOS TAKES
(TUDO NÃO PASSA DE ENFEITES)

DAS SINAS
AO BATER DOS SINOS
E DOS FEITOS.

VOCÊ É A VIDA,
O PRIMEIRO E O ÚLTIMO CÁLICE
DA IMPUREZA DOS EXTREMOS.

VOCÊ É A VIDA
DESDE O PRIMEIRO INSTANTE.

VOCÊ É A VIDA
ATÉ O ÚLTIMO CÁLICE.

VOCÊ É A VIDA
DESDE O PRIMEIRO MOMENTO
ATÉ O ÚLTIMO CÁLICE.
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segunda-feira, 28 de abril de 2008

Eu não existo sem você (Tom Jobim e Vinícius de Moraes)




Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você

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terça-feira, 22 de abril de 2008

O amor naufragado



Quando eu pensei saber tudo sobre Deus,
que os mortos não voltavam
e o passado era uma estátua de sal
para não ser contemplada
eis que o mar invade minha jangada
numa torrente de águas rebeldes,
em tempestade de repente.

Não havia sereias em alto mar,
não passavam navios para me salvar
nem qualquer baleia para me engolir
e eu ficar aquecido em seu ventre.

Percebi que muita gente estava
no fundo do oceano a me chamar
pelo nome, com suas vidas em minha vida
porque seus destinos foram como
o meu - de abandonar a ilha e saber
que no fim todos estamos submersos.

Então eu pensei ter visto uma pessoa
entre os fantasmas de sorrisos amarelos,
com seus olhos fechados, suas sombras vazias.

Por onde andava não sei
o que dizia não pude ouvir
nem destingüi o tamanho de seu rosto
pelo que havia restado na memória,
pelo que insistia permanecer
de seus olhos mirando os meus
e seu silêncio calando meus lábios.

Quem era a pessoa de cabelos longos
no desenho da multidão
figurando como retrato
deixando largo um sorriso
em meio a morte, ao longo da vida...

Seus rastros eram os mesmos
de muita gente que me seguia
nos meus passos
e isto me confundia e me chamava
para perto da rua onde se davam
os fatos, as pessoas e seus amores
que era pouca a explicação
do que ali fazia aquele corpo
com um seus modos diferentes
do que um dia eu conhecera.

Tinha na face uma força
diferente e parecia ter
perdido seus mistérios e sua flama,
restava somente uma luz, um desenho
contorno de alguém que eu acho
que um dia existiu
num livro lido
numa peça de teatro, conto universal.

Para o fim da tempestade restou
meu corpo naufragado com saudades,
meu suor misturado ao cansaço das ondas,
meu fim justificado no meio do mar,
uma calma de quem não podia lutar,
a certeza que por mãos de Caronte
vinha o que os homens negavam
e Deus julgava ser um instante
e uma passagem para uma vida secreta
àqueles que se perdem na terra dos viventes.
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